Eureka!

Neste último final de semana, me refugiei em um sítio de parentes, para tentar encontrar alguma tranqüilidade para minha almah. Foi quando presenciei uma cena transcendental, quase que epifânica. Deitado no sofá da varanda, eu observava uma série de gaiolas penduradas na parede. Os pássaros cantavam e tinham toda a comida e a água de que precisavam para viver.
Pensei eu... “Quer vida melhor? Ter tudo o que se precisa a troco de um canto. Sem preocupações...sem medos”
Instantaneamente (pra não dizer magicamente), vem um pássaro das árvores, pousa na gaiola. Ali ele se alimentou e bebeu a água limpa através das grades. Quando saciou-se, foi embora, sem dar satisfação, sem canto, sem nada...apenas com sua liberdade.
Essa cena foi como um soco no estômago...Percebi o quanto nos contentamos com aquilo que contribui para nossa sobrevivência, que nos dá uma certa segurança e em troca abrimos mão de nossas escolhas.
Não é difícil vermos pessoas insatisfeitas há 20 anos no mesmo emprego ou há 10 no mesmo casamento. Por que será tão difícil dar um passo para a mudança?
O meu pensamento seguinte foi: “se eu fosse aquele pássaro da gaiola, pararia de comer pra morte chegar mais rápido”
Acho que nossa essência está justamente calcada na experiência do existir, basta saber quais são essas experiências...
E você? Acha que se parece com qual dos dois pássaros?

Cidade ou Cemitério?


Sei não...
(sobre)
vivo inquieto com o som do caos.
a cor cidade mata o homem
que se dá à mata...
numa tentativa desesperada
de desintoxicar a carne



(aqui)
Os caminhos são regidos por placas!
não se têm senso de direção,
não sabem onde pisam...
e nem sabem onde vão.
Chegam ao mesmo ponto de partida
Será que chegam? ou sequer partilham...


Procuro algo que remova a poeira de nossas retinas,
para que possamos enxergar o quanto estamos cegos.

Contos do Vigário

A infância é um período marcado pelo processo (inicial) de constituição daquilo que viremos-a-ser. Portanto todas as formas de interação podem contribuir para a formação de um sujeito.

Uma dessas formas de interação que tem me chamado bastante atenção é a famosa “historinha infantil” ou “contos de fadas”. Sendo assim pretendo fazer uma série com breves análises do impacto desses contos infantis na subjetividade dos sujeitos e na difusão das ideologias dominantes que estruturam e controlam as massas.

Para abrir a série escolhi o conto “O PATINHO FEIO”.

Um filhote de cisne é chocado no ninho de uma pata. Por ser diferente de seus irmãos, o pobrezinho é perseguido, ofendido e maltratado por todos os patos e galinhas do terreiro.
Um dia, cansado de tanta humilhação, ele foge do ninho. Durante sua jornada, ele vai parar em vários lugares, mas é mal recebido em todas. O pobrezinho ainda tem de agüentar o frio do inverno.
Mas, quando finalmente chega a primavera, ele abre sua asas e se une a um majestoso bando de cisnes, sendo então reconhecido como o mais belo de todos.


Ora bolas, mas qual é a “moral” da história? Ao fazer essa pergunta para uma amiga, ela me responde: -“Acho que é a valorização dos aspectos interiores...Ou me enganaram a vida inteira?”
Acho que temos sido enganado há muito mais tempo do que imaginamos. Vejamos o trecho inicial da obra:


"Era uma vez ...Uma patinha que teve quatro patinhos muito lindos, porém quando nasceu o último, a patinha exclamou espantada:- Meu Deus, que patinho tão feio! Quando a mãe pata nadava com os filhos, todos os animais da quinta olhavam para eles:- Que pato tão grande e tão feio!”
(adaptação de um conto de Hans Christian Andersen)


Penso que a verdadeira moral deste conto seja, justamente, a falta de moral. O Patinho Feio nos remete ao paradigma das sociedades pós-modernas, onde há o descrédito dos valores e dos grandes ideais e as fichas são depositadas nas tentativas superficiais e imediatistas de alcançar o Gozo. Mas o reflexo mais notável neste conto seria o culto ao corpo, ao belo: A ascensão do narcisismo e hedonismo.

Tudo começa e acaba no “ficar com”, no “catei fulano”, na “pegada da noite (ou da hora)”. Antes de ser um vazio do ser é um ser no vazio. Um ser “nietzscheano”. Se a vida começa e termina na experiência, resta a sucessão de experiências para aplacar o vazio.
Fico pensando na reação da mamãe Pata...ao ver aquela criatura abominável, diferente, horrenda e FEIA...Abandonou um dos seus por este não corresponder à uma expectativa social. E quantas vezes nós não agimos da mesma forma?

Não é atoa que notamos o número crescente das “tribos urbanas”. Micro grupos onde a coesão está exatamente fixada na aversão ao diferente. Agora a onda é andar com a franja caída pro lado direito do rosto, quem pentear a franja para o lado esquerdo ESTÁ FORA. Monte seu próprio grupo!!!


Para finalizar esta critica, vejamos o desfecho da história:

“Os cisnes desataram a voar e o Patinho Feio fugiu atrás deles.Quando passou por cima da sua antiga quinta, os patinhos, seus irmãos, olharam para eles e exclamaram:- Que cisnes tão lindos!”
Na modernidade, há dissociação entre o belo e o justo e também do verdadeiro. Aí está a revolução moderna: o belo deixa de ser a representação de justiça e verdade. Na modernidade a beleza é para ser vista e cultuada, portanto, não para ser vivida.

O Patinho Feio só conseguiu aceitação e aprovação social quando foi percebido enquanto um lindo cisne, e lindo no sentido concreto da palavra. Recorrendo ao mitológico céltico, tem-se a afirmação de que três coisas o homem é: i) Aquilo que ele pensa que é; ii) Aquilo que os outros pensam que ele seja e; iii) Aquilo que ele verdadeiramente é. Na pós-modernidade tenta-se esconder a verdadeira natureza humana fazendo espetáculos que anulam os dois primeiros referenciais. O indivíduo evita pensar em si mesmo e induz o outro refletir a imagem pela qual quer ser visto.

O que consigo pensar e aproveitar ao ler “o Patinho feio” é que devemos acreditar no PONTENCIAL(nem sempre visível) das pessoas, na capacidade de vir-a-ser, de tornar-se outro ser, de tornar-se um não-ser para em seguida, ser um outro.

Acreditas em que?




Crente?

-todos nós somos!

Uns crêem no sagrado,

outros no profano.

Eu prefiro acreditar

que esse mundo está,

em sua totalidade, insano.


O Ateu acredita que não acredita em Deus;

O cristão crê num pai ausente, e esquece do irmão;

O anticristo, também, mas louva o inimigo;

O homem-bomba explode o corpo pela causa santa;

O homem-santo explode a bomba por intolerância;

O homem-branco ensina ao índio toda sua ignorância,

e atira pela janela a voz da infância.


Contudo,

deve existir alguma razão na insanidade,

assim, como há loucura em toda paixão.

Em quem acreditar?

Nos que matam por caridade?

ou nos que partem um coração?

Eu acredito que todas as tentativas de responder serão em vão.

Um pouco de Existencialismo...


Nesta quarta-feira assisti ao filme “A EXCÊNTRICA FAMÍLIA DE ANTÔNIA”, Direção de Marleen Gorris. O Filme retrata com momentos de violência e desespero, mas também outros de grande beleza, a reestruturação de uma família esfacelada no pós-guerra.
Mas não é o filme que quero focar nesse momento, e sim a citação do personagem Kromme Vinger (Tradução: Dedos Tortos), um professor intelectual e filósofo niilista ao extremo, bem como era de se esperar devido ao momento histórico retratado ser considerado o “berço da filosofia existencial”:



“É absurdo crer que a dor constante que nos aflige...seja puro acaso.
Pelo contrário. A desgraça é a regra, não a exceção.
A quem culpar por nossa existência?
À explosão solar que nos deu a vida?
Eu me recuso...
já que não creio em Deus ou reencarnação.

Se acreditasse, poderia me iludir de que a vida nos promete...
...uma sobremesa divina, depois da indigesta refeição.

Nunca fui capaz de aceitar a simples concepção...
de que tudo um dia vai melhorar. Nada irá melhorar.
Melhor ou pior... só será diferente.
Não quero mais pensar...
Acima de tudo, não quero pensar."



Fica claro a base do pensamento de Schopenhauer, afirmando que a capacidade de sofrer aumenta na proporção da inteligência, e atinge portanto no homem o mais elevado grau. Para Schopenhauer, só a dor é positiva. Ele afirma que a maior parte dos sistemas metafísicos explicam o mal como uma coisa negativa; só ele, pelo contrário é positivo, visto que se faz sentir... O bem, só faz suprimir um desejo e termina um desgosto.
Fica então a indicação para quem gosta de Schopenhauer, Nietzsche e o Existencialismo em geral.
Ainda fazendo uma referência ao personagem citado acima o nome “Dedos Tortos” cai como uma luva, na metáfora perfeita de que por mais que nos esforcemos, não conseguimos apontar a direção exata de onde estamos agora, de onde estivemos ontem e o principal, de onde desejamos estar amanha. Assim o tempo não se preocupa com a vida ou a morte... declínio ou ascensão, amor, ódio ou ciúmes. Ignora tudo que nos é importante... e faz com que esqueçamos dele...Portanto, o tempo é o nosso carrasco é o nosso algoz, é aquele que nos consome em todos os instantes de nossa existência, efêmera, fugaz, fugidia e caótica.

O Teatro Mágico

O Teatro Mágico

Certa madrugada de insômnia (como já é de se esperar) assistia ao programa Altas Horas, onde a atração principal era a renomada banda Sepultura. Eis que entra no palco uma banda que eu nunca tinha ouvido falar: O Teatro Mágico. Por alguns minutos fiquei extasiado com a bela apresentação da trupe e com suas letras que aproximam a poesia das críticas sociais, além de números circenses durante a execução das músicas. Comecei a me interessar por aquele som e pesquisei no site deles. Aliás, para quem quiser acessar: http://www.oteatromagico.mus.br/ , é isso mesmo...”.mus.br” e não “.com.br” pois com é comércio e o que eles fazem é música (Segundo o Próprio vocalista).
O mais engraçado foi que a platéia, em sua maioria, cabeludos vestidos de preto, não parava de aplaudir o Teatro Mágico, chegando até a se esquecer das outras atrações do programa.
Fiquei pensando...o cenário musical brasileiro deve mesmo estar “enterrado num túmulo bem profundo”, nada de novo acontecia há tempos. Não é de se estranhar que o vocalista se vista de palhaço para chamar a atenção dos ouvidos mais aguçados!


"a futilidade encarrega-se de maestra-los. São inóspitos, nocivos, poluentes. Abusam da própria miséria intelectual, das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia. O veneno se refugia no espelho do armário - lembrou um deles"

(Trecho de: Os Insetos Interiores - Segundo Ato)