Contos do Vigário

A infância é um período marcado pelo processo (inicial) de constituição daquilo que viremos-a-ser. Portanto todas as formas de interação podem contribuir para a formação de um sujeito.

Uma dessas formas de interação que tem me chamado bastante atenção é a famosa “historinha infantil” ou “contos de fadas”. Sendo assim pretendo fazer uma série com breves análises do impacto desses contos infantis na subjetividade dos sujeitos e na difusão das ideologias dominantes que estruturam e controlam as massas.

Para abrir a série escolhi o conto “O PATINHO FEIO”.

Um filhote de cisne é chocado no ninho de uma pata. Por ser diferente de seus irmãos, o pobrezinho é perseguido, ofendido e maltratado por todos os patos e galinhas do terreiro.
Um dia, cansado de tanta humilhação, ele foge do ninho. Durante sua jornada, ele vai parar em vários lugares, mas é mal recebido em todas. O pobrezinho ainda tem de agüentar o frio do inverno.
Mas, quando finalmente chega a primavera, ele abre sua asas e se une a um majestoso bando de cisnes, sendo então reconhecido como o mais belo de todos.


Ora bolas, mas qual é a “moral” da história? Ao fazer essa pergunta para uma amiga, ela me responde: -“Acho que é a valorização dos aspectos interiores...Ou me enganaram a vida inteira?”
Acho que temos sido enganado há muito mais tempo do que imaginamos. Vejamos o trecho inicial da obra:


"Era uma vez ...Uma patinha que teve quatro patinhos muito lindos, porém quando nasceu o último, a patinha exclamou espantada:- Meu Deus, que patinho tão feio! Quando a mãe pata nadava com os filhos, todos os animais da quinta olhavam para eles:- Que pato tão grande e tão feio!”
(adaptação de um conto de Hans Christian Andersen)


Penso que a verdadeira moral deste conto seja, justamente, a falta de moral. O Patinho Feio nos remete ao paradigma das sociedades pós-modernas, onde há o descrédito dos valores e dos grandes ideais e as fichas são depositadas nas tentativas superficiais e imediatistas de alcançar o Gozo. Mas o reflexo mais notável neste conto seria o culto ao corpo, ao belo: A ascensão do narcisismo e hedonismo.

Tudo começa e acaba no “ficar com”, no “catei fulano”, na “pegada da noite (ou da hora)”. Antes de ser um vazio do ser é um ser no vazio. Um ser “nietzscheano”. Se a vida começa e termina na experiência, resta a sucessão de experiências para aplacar o vazio.
Fico pensando na reação da mamãe Pata...ao ver aquela criatura abominável, diferente, horrenda e FEIA...Abandonou um dos seus por este não corresponder à uma expectativa social. E quantas vezes nós não agimos da mesma forma?

Não é atoa que notamos o número crescente das “tribos urbanas”. Micro grupos onde a coesão está exatamente fixada na aversão ao diferente. Agora a onda é andar com a franja caída pro lado direito do rosto, quem pentear a franja para o lado esquerdo ESTÁ FORA. Monte seu próprio grupo!!!


Para finalizar esta critica, vejamos o desfecho da história:

“Os cisnes desataram a voar e o Patinho Feio fugiu atrás deles.Quando passou por cima da sua antiga quinta, os patinhos, seus irmãos, olharam para eles e exclamaram:- Que cisnes tão lindos!”
Na modernidade, há dissociação entre o belo e o justo e também do verdadeiro. Aí está a revolução moderna: o belo deixa de ser a representação de justiça e verdade. Na modernidade a beleza é para ser vista e cultuada, portanto, não para ser vivida.

O Patinho Feio só conseguiu aceitação e aprovação social quando foi percebido enquanto um lindo cisne, e lindo no sentido concreto da palavra. Recorrendo ao mitológico céltico, tem-se a afirmação de que três coisas o homem é: i) Aquilo que ele pensa que é; ii) Aquilo que os outros pensam que ele seja e; iii) Aquilo que ele verdadeiramente é. Na pós-modernidade tenta-se esconder a verdadeira natureza humana fazendo espetáculos que anulam os dois primeiros referenciais. O indivíduo evita pensar em si mesmo e induz o outro refletir a imagem pela qual quer ser visto.

O que consigo pensar e aproveitar ao ler “o Patinho feio” é que devemos acreditar no PONTENCIAL(nem sempre visível) das pessoas, na capacidade de vir-a-ser, de tornar-se outro ser, de tornar-se um não-ser para em seguida, ser um outro.

16 comentários:

Carlos Eduardo disse...

Uma vez que esses cultos foram criado - culto a celebridade, a beleza e tudo mais - não será mais possível destruí-los... afinal, existem muitas pessoas para alimentá-los.

Ótimo texto, parabéns!


http://putoanonimo.blogspot.com

HoneyBee disse...

Excelente post. Não havia pensado sobre isso, mas é verdade. Se a moral da história fosse a valorização dos aspectos interiores, deveríamos ver o patinho, ainda feio, ser amado e querido por todos, por suas características escondidas debaixo da feiúra.

Joey disse...

Muito bom esse Blog!

Clovis sivolc disse...

nosso mto bom esse post , pra refletir realmente , Vendo por outro lado agora a história do patinho feio não é nda agradável.

Prolixo Lacônico disse...

Nunca havia pensado sobre isto e vc tem a maior razao!!

Cleiton disse...

perfEita essa analise do qual vc fez, e não é só essa historia que mostra esse paradigma sujo e xulo da nossa sociedade. O culto da beleza, a metamorfose corporal para adentrar ou ser aceito em determinado grupo. E com isso acabamos a nos tornar iguais. eu mesmo saio na rua e vejo varias pessoas com roupas identicas. é a forma de tentar se inserir na sociedade. ai quando apareço no meio dessa "sociedade" vestido meio que hiPpie e com o cabelo bagunçado as pessoas me olham com indiferença pois eu não estou enquadrado no que elas chamam de "referencial" daquele grupo.

www.gregoryzairuz.blogspot.com

Lucas disse...

muito bom folk...nen sabia que era assim mesmo... otimo texto

Janse Romero disse...

muito muito bom este assunto. Hoje nossa aparêcencia virou um produto. A maioria de nós saímos como um patinho feio por ai, outro procuram uma tribo para não se estranhar... outros querem ser o mais pato feio da turma.

É engraçado a questão do estereótipo está tão associado ao capitalismo. A nossas aparência perante a sociedade anda lado a lado com a moda, a moda óbvio produto do capitalismo. E ela nos massacra. Mulheres já não aceitam seus seios pequenos, tem que "turbinados", senão será uma patinha feia. Homem tomam remédios e carregam peso para terem seus pescoços pequenos e pertencer a padrão bombado, aceito pelas "turbinadas". Senão será um patinho feio tambem. Vamos ver... espero que um dia a moda seja todos serem o que são e o que sentem!!!

João Vitor disse...

tenho saudade da minha infancia!
gostei muito desse poste \o/

http://joaovitors.blogspot.com/

Veiga disse...

muito legal...

voltarei mais vezes.

abraço

http://trocistas.wordpress.com/

Jonatas Fróes disse...

Pois é, um conto sobre o preconceito explícito. "O Patinho Feio" é apenas um dos diversos exemplos de histórias infantis de má indole hehe xD

Mas claro que no conceito histórico, da época em que foram 'criados', era um fato corriqueiro, comum.

;*

Musikaholic

Tatiana disse...

Legal.
Já trabalhei o conto do patinho feio em sala de aula (no estágio de Letras, não sou professora) e me bati muito em não impôr uma leitura, dar lição de moral com o conto (pois não podemos fazer isso com literatura). Se tivesse lido seu post, acho que teria me ajudado. Hehe

tatilazz.zip.net
mulheresdeathenas.blogspot.com

.......Zé Colmeia disse...

Uma vez que esses cultos foram criado - culto a celebridade, a beleza e tudo mais - não será mais possível destruí-los... afinal, existem muitas pessoas para alimentá-los. [2]

ela disse tudo sem palavras

http://zcolmeia.blogspot.com/

30 e poucos anos. disse...

Preconceito claro no patinho feio...

Vc fez uma ótima reflexão sobre o assunto

SeuIrro.blogspot.com disse...

é.. nós podemos tirar verdadeiras liçoes dessas histórinhas que as vezes pensamos serem só bestera...

o/

Paulão Fardadão Cheio de Bala disse...

E o da cigarra e a formiga: "Era uma vez uma cigarra e uma formiga. Enquanto a formiga trabalhava a cigarra cantava. Aí veio o inverno e a formiga ficou gorda e a cigarra magra de fome. Então a cigarra comeu a formiga".

Diga a moral desa quem for sabidão.