Diálogo de um casal Monótono




Ele olhou para o relógio no canto inferior esquerdo da tela do computador. Faltavam 15 minutos para as nove da manhã. Ainda era cedo para alguns...mas não para ele, que afinal, acordara as seis para mais um dia de trabalho no escritório de contabilidade. O sol já refletia pela tela do computador, quando pensou que seria boa idéia ligar para sua amada:

- Alô! (ela atendeu com a voz rouca e trêmula de quem acabara de acordar)
- Alô! Desculpa por te tirar da cama. Precisava falar com você! (ele respondeu excitado)
- E aí, novidades? (ainda aquela voz rouca e trêmula)
-Não, e você?
-Também não...
-Então, o que queria falar comigo?
-Estava aqui pensando em encontrarmos no centro hoje. O que acha? Por volta de meio-dia...
- Gostei da idéia, é bom que mato a saudade que tenho de você!
-Agente encontra e podemos ir para minha casa almoçar! Ok?
-Hum! Sei não...Porque agente não come alguma coisa no "shopping center"? (como se soubesse falar outro idioma)
- Ah amor! É que hoje não tenho dinheiro. Você tem?
- (Silêncio)
-Então, o que agente faz?
-Ah amor, me liga mais tarde pra gente decidir!
-Um beijo Linda
- Outr...(dormiu antes de terminar a palavra)

(De)Lírios do Campo

 
Já era tarde da noite, e de repente me vi ali, estagnado. Tentava pensar em algo, mas um vazio inquietante tomava conta de mim... e não vinha nada. Vestia o melhor blazer e a mais bela calça de linho importado; afinal, queria deixar transparecer um semblante cortês, com uma pitada de arrogância. Na verdade desejava ficar sozinho, o caos de toda aquela gente – algumas faces nem me recordava - começava a perturbar minha serenidade quase onírica. O perfume que tomara conta do ambiente era de meu agrado, uma mistura perfeita de ervas-doce e aroma suave de flores do campo. Mas, tentando me distanciar daquela multidão, fixei o olhar na fresta da janela e percebi o sol despontando. Àquela hora já deveria estar com olheiras terríveis – imaginei -. Após uma lúgubre noite de espera, tive a sensação que já poderia ir para casa. Estaria certo de que mais nada me restava daquele lugar, se não fosse meu pai em prantos sobre o invólucro de madeira que, hermeticamente, enfaixava meu corpo gélido. 

Entardecer na querência

Vou esperar entardecer
E te levar pro alto da colina
Assistir a lua nascer
Tudo é perfeito lá de cima

Você estende o lençol na grama
E deitamos na mais confortável cama
Eu te estendo meus braços
E nos perdemos em um milhão de abraços!

Em frente a uma igreja antiga
O barulho alto do trem
Parecia uma cantiga
Que nos transportava para muito além da vida...

Fizemos amor no portão da capela
E entrei no reino dos céus
Deus se mostrou da forma singela
Sem mentiras e sem véus...

"Euminismo"


Do sofrimento alheio

Faço poesia,

Do meu próprio:

Melancolia

Da sua queda

Faço piada,

Da minha própria:

Risada sem graça

Da morte alheia

Finjo que compreendo,

Da minha própria:

Vivo escondendo

O seu preço

Pago de imediato

O meu:

Acho barato e desfaço

A felicidade alheia

É merecedora

A minha própria:

Pecadora

Alguém aí viu onde foi parar meu Ego?


FERNANDA



Quando os dias são de sol
A claridade machuca nossa visão
É assim que me sinto hoje
O amor cegou meu coração

Hei menina!
Não pule da janela,
Nem se atire da sacada...
Não tem mais ninguém pra te segurar
Não há um centavo na calçada.

Você me deu tantos sinais
Eu não queria perceber
Mas a curiosidade mata
Eu morri quase sem querer

Dá-me uma pancada na cabeça
Quero apagar minha ultima semana
Talvez um dia eu esqueça
Que não se paga a quem se ama!

E agora? Como volto pra casa?
Se você me deixou tem teto
Meu corpo inteiro dói
Parece que fui atropelado por um inseto...

Hei menina!
Não pule da janela,
Nem se atire da sacada...
Quanto vale a sua vida?
Uma nota amassada?

Metamorfose


Estou em constante metamorfose!
Minha meta é mudar a cada minuto
Para não morrer na mesma forma...
...em que vim ao mundo.
Mudo para manter sempre uma esperança...
...Pois no fim nada permanece,
Exceto a própria mudança!

Bicho-do-Mato



Sou bicho-do-mato
finjo que vivo
às vezes escapo
do fogo cruzado.

Sou bicho-do-fogo
Finjo que mato
As vezes vivo
Cruzando o espaço.

Sou bicho-que-finge
Vivo escapando
As vezes cruzando
Um dia me mato.