Flor de Papel


Guardo comigo sua foto mais bonita,
E a flor de papel que você me deu!
Como quem guarda uma boa lembrança
Daquele momento que nunca aconteceu.
Sou o ateu esperando retorno do messias,
Promessas não matam a fome de minha alma
Nem curam o corpo há muito esfacelado.
Se for pecado pedir um pouco de sinceridade
Maior penitência é dar sentido à realidade
E ver seu sorriso estatizado,
Papel em branco que virou flor sem vida,
... e sem verso. 

Trago você todos os dias


Fragmentos de um pergaminho antigo!

...poesia inacabada.

Cartão postal de um país desconhecido!

...equação sem resposta.

Mas quando as línguas se aproximam,

A tradução é espontânea.

O sabor das ervas finas,

Em cada trago de esperança.

Ao findar o dia você se esvai,

Feito fumaça na chaminé mais alta,

Feito o sonho de quem desperta com o menor ruído.

Aqui jazz: Razão



Estamos viajando sem destino certo
Já cruzamos duas estações
Seu olhar frio que aparece no verão
E minhas noites quentes de inverno

Mais uma vez...

Quem vai saltar do trem em movimento?
Quem vai voltar andando pra casa?
Estou quase me rendendo ao medo sólido
Estou a um passo de quebrar a cara

Mais uma vez...

Me perdi no sentido contrário da razão,
No ponto cego de quem está na direção.
E não importa que mil léguas nos separem
A maior distância é sempre a da ilusão.

Mais uma vez...

A Invenção de Mim



Sou cachorro faminto revirando o lixo,
Em busca das sobras de ontem!
Gato que vive em cima do muro,
Andando sobre cacos de vidro...

Apenas um passo em falso pra ferida se abrir.

Sou navio que naufraga na poeira do deserto,
Balão inflado à gás letal
Gestação de risco econômico para o país
Criança atraída pela escuridão do guarda-roupa...

A bandeira foi erguida sem mastro e sem brasão.

Choro de Menina



Menina do alto do morro
És fonte de cura e encanto
E pensa que sabe o que quer
Diz que gosta de mim, mas nem tanto!

Menina do alto do morro
Tens cheiro de orvalho do campo
Diz que um dia vai se casar
Mas ainda me quer por enquanto!

E eu que não sou doutor,
Aprendi desde criança:
“O jardim que deu mais flor, cultivava a esperança”

Quando ela desce o morro
Todo mundo se levanta
Pra ver a Menina passar
Como um desfile de samba.

A Viagem nossa de cada dia



Apenas quem já caminhou com os pés nas estrelas
Percebeu o resto do mundo andando na contramão da gravidade.
O fio condutor da energia vital humana é a música.
Dependurados e dependentes...
Decaem sobre o peso do próprio corpo, na medida em que o som cessa.
O descanso dos merecidos é banhado pelas ondas eletromagnéticas
Que se propagam em suas almas, princípios básicos da anti-matéria,
Oscilando entre picos e vales,
Entre noites e dias, silêncio e som.
E de repente acordam...
Sem o encanto de outrora,
Com os pés no chão.



algum veneno anti-sensacionalismo!


“... o povo escolheu a globo, isso é globalização”. Dizia o jingle de carnaval da maior rede de televisão no país. Se a voz do povo é a voz de Deus, por conseqüência, Deus escolheu a globo, isso é... isso é... isso é alienação!
Como se não bastasse a inundação de dólares no país, elevando ao absurdo o preço do combustível que é produzido aqui mesmo, no Brasil... Como se não bastasse a importação de costumes e sanduíches de nações supostamente desenvolvidas, o episódio trágico naquela escola do Rio de Janeiro é um forte indicio de que estamos também importando modelos terroristas, [\sarcasmo]que devem ser bem mais preparados do que os criados aqui[\sarcasmo]. Um jovem entra numa escola, na posse de duas armas de fogo e friamente escolhe suas vítimas, dando-lhes tiro na cabeça. Eram crianças que acreditavam investir num futuro melhor através dos estudos.
Tenho a sensação de que já vi essa noticia antes, no NY Times, CNN ou em outro noticiário importado. Mas no Brasil é o primeiro massacre dessa magnitude. Será que estamos concorrendo em algum ranking internacional?
O fato é que o assassinato em massa na escola do Rio denuncia a insuficiência dos sistemas de segurança, educacional, saúde e assistencial, ou seja, o Estado é uma peneira, e isso é genuinamente brasileiro.
Surgem então algumas indagações: - O que vamos fazer com todos os Big Mac’s importados diante dessa tragédia? – Quem sabe um Mac-lanche feliz amenize o sofrimento das famílias que perderam seus filhos? – Qual foi a lição aprendida naquele dia de aula?
Quem tem o mínimo de humanismo dentro de si, passou por dificuldades para dormir essa noite. Poderia ter acontecido com qualquer um de nós, com nossos filhos e amigos. Como tudo o que é importado vira moda, tenho um leve palpite de que ainda veremos cenas do próximo capitulo sentados no sofá de nossas casas, consumindo de orelhas baixas as noticias que nos chegam de maneira sensacionalista. Se existe algo que vende mais do que sanduíches importados... É a degustação do sofrimento alheio!